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Corrida de Toiros em Évora (51º Concurso de Ganadarias)

Caros amigos do Grupo de Forcados Amadores de Montemor, se existe momento difícil na vida de um Aficionado, este é um deles: escrever uma crónica sobre o 51º Concurso de Ganadarias de Évora, mais propriamente sobre a actuação do Grupo de Forcados Amadores de Montemor.

Sabendo O Francisco Borges da minha total incapacidade para “pegar este toiro”, mesmo assim achou por bem mandar-me á cara do “bicho”. Podem dizer uns que é um “badano”, ou que o toiro não faz mal nenhum, que tem uma franca investida, etc… mas, na minha modesta opinião, não se manda um indivíduo á cara de um toiro, sabendo que este pode deixar ficar mal visto todo um Grupo prestigiado como é o Grupo de Montemor. Enfim… Se é para ir á cara do toiro, vamos á cara do toiro e seja o que Deus quiser e o que o coração deixar…

Em meu nome e no nome do Grupo de Montemor quero dedicar esta pega, ao meu querido Zé Maria, Forcado que admiro e que é o garante da Arte de pegar Toiros, quer pela sua abnegação, escolhendo sempre para si a responsabilidade de pegar o maior toiro da corrida (digo, de qualquer corrida), quer pelo brilho que incute nas suas actuações, mostrando Classe e Saber na hora de estar frente aos toiros. É desta massa que se fazem os Forcados com história, e para a História.

Colocado o barrete, e ajeitada a jaqueta, aliso a arena debaixo dos meus pés, para esconder o nervosismo, e bato as palmas ao toiro. Coração a mil á hora… Venha de lá esse Bicho…

Olé João Tavares! Que confiança dás a um cabo que te tenha nas suas fileiras! Que és valente, toda a gente o sabe, que sabes de toiros também, mas quando bates as palmas a um toiro, a confiança que emana do teu olhar, a tranquilidade do teu rosto, faz-nos pensar que pegar um toiro é obra que qualquer um pode executar. E como estamos enganados. Que Deus te proteja, para nos brindares com a tua mestria a pegar toiros.

O toiro continua fechado em tábuas, e eu peço ao bandarilheiro que lhe dê um toque, para ver se ele se arranca depressa… o nervosismo leva-me a ajeitar mais umas vez o barrete, mais um toque na jaqueta, um olhar de soslaio ao grupo. É Toiro! É Toiro Preto!

O sonho comanda a vida! Sempre! E se nalgumas alturas da vida, ao acordarmos, realizamos que fomos alvo de um pesadelo, e que a tristeza momentânea nos invade a alma, num assomo de galhardia e humildade, é levantar a cabeça e dizer á vida que mantemos acesa a vontade de sonhar, porque o sonho é Nosso!
O sonho de João Romão Tavares, era brilhar em Évora. Mas o sonho apresentou-se disfarçado de pesadelo. Mas aqueles homens, que teimam em não se vergar ao insucesso ou ao acaso demoníaco, um dia brilharão, e o seu brilho irá iluminar e resplandecer em glória, todos aqueles afectados pela sombra da dúvida do seu Valor.

O toiro já me viu! Sinto a boca seca, desde os lábios até ao estômago, como se o meu corpo fosse um árido deserto sedento do orvalho da manhã…
O toiro arranca para mim, com vontade de me comer, mas na minha mente só a voz dos meus irmãos de armas ecoa no meu coração: “se ele te comer, tem que te cagar!”
Recuo dois passos, e num abraço á córnea, fecho-me no toiro… um derrote, dois, e ainda um terceiro…sinto o grupo, a fechar-se em mim…

A Vontade, o Querer, o Saber, a Experiência de tantas e tantas tardes de glória, nem sempre são a garantia que tudo corre conforme o pretendido.
Assim aconteceu, na tarde de Domingo com um dos maiores valores da Forcadagem Nacional, o nosso Zé Maria. Não quero saber, se o Zé Maria escorregou no momento da reunião, ou se carregou o toiro, quando não é seu apanágio faze-lo se o toiro vier com investida franca.
Uma única coisa que quis saber, na tarde de Domingo, naqueles segundos terríveis em que prostrava inanimado na Praça da Arena de Évora: que tudo mais não passava dum susto, dum dormir momentâneo, e que tudo estava bem com o seu estado de saúde.
Uma única coisa sei, com toda a certeza: na próxima tarde ou noite que o Grupo se fardar, lá estará o Zé Maria na cara do maior ou mais complicado Toiro, que sair em sorte na corrida ao Grupo de Forcados Amadores de Montemor.

Sinto o calor do abraço dos meus amigos, o júbilo do dever quase cumprido: “vamos lá rapaziada: 1...2...3…TOIRO!!!TOIRO!!!TOIRO!!

Quando um forcado da cara se farda, e se o coração não o abandona, no seu espírito, a caminho da praça, ele sonha com a gloria de um toiro pegado á primeira, dos aplausos das mulheres bonitas, da inveja dos homens na bancada por não terem a coragem de o igualar.
Sai o primeiro, sai o segundo, sai o terceiro, e o cabo não o escolheu! Alguma frustração lhe invade a alma…a desilusão ocupa o espaço do sonho… a realidade bate-nos no rosto como se a querer acordar-nos…
E é então que acontece: É preciso dobrar um amigo!
Naturalmente, se pensaria que a felicidade voltaria em catadupas. Algures os deuses ouviram as suas preces, a gloria ainda será possível e com ela a máxima alegria, e tudo o resto que se sonhou… Muito se enganam os que assim pensam.
Dobrar um amigo, é acabar a sua obra! É não deixar que o cinzel caia no chão, e a pedra bruta se torne obra de arte!
Para o João Braga, a obra acabada, pode não ter sido, a suprema obra de uma vida, mas temos a certeza que não foi uma obra inacabada.

E chega a hora de agradecer, de saltar á arena e receber o aplauso das mulheres bonitas e o reconhecimento dos nossos pares.
Aí chamo à praça, o Grupo de Forcados Amadores de Montemor, para em comunhão, recebermos o aplauso de respeito do Publico.

Pode não ter sido a minha melhor pega, mas foi feita com o coração, com a humildade na alma, e uma eterna gratidão, por me terem dado este Toiro!
E por Montemor:
Venha Vinho! Venha Vinho! Venha Vinho!

Carlos Cunha





















Reportagem Fotográfica:
Florindo Piteira

http://www.pitonapiton.com/época-2010/évora-16-05-10/

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